No século XXI a humanidade tem várias conquistas a celebrar: a internet diminuiu distâncias aproximando culturas, o homem viajou até a lua, desbravou oceanos chegando aos recantos mais longínquos, a medicina tem avançado consideravelmente, pela primeira vez uma mulher é eleita para conduzir os destinos do nosso país.
Não obstante todas as conquistas, no campo da sexualidade humana continuamos vivendo sob os olhos da “Santa Inquisição” (que de santa mesmo só tinha o nome), de modo que uma pessoa é julgada boa ou má, portadora de direitos ou não, principalmente a partir da sua orientação sexual e identidade de gênero.
Em tempos onde os direitos humanos precisam ser diariamente reafirmados como bandeira primordial da nossa democracia, vale refletir sobre o conceito de violência. Necessário se faz entender a violência como algo que se expressa de diversas formas.
Para além da violência física, violência é também a negação de direitos, é a pressão psicológica sobre determinada pessoa, é o silêncio que grita, é o olhar que despreza, é a piada que discrimina e é também o grito em coro de uma torcida em um estádio de futebol tentando desqualificar seu adversário a partir da ótica heteronormativa.
A agressão sofrida pelo jogador do Sport Clube do Recife, Ciro, no clássico contra o Santa Cruz, na Ilha do Retiro, no domingo, 03/04/2011 simboliza a homofobia internalizada na sociedade, aquela que ao mesmo tempo em que é negada fica a espreita de uma possibilidade para mostrar suas garras (ou seria a língua ferina da cobra coral?).
Hoje o preconceito é mais difícil de ser enfrentado porque é velado, uma vez que está na moda o ser politicamente correto. Assim dificilmente as pessoas se assumem enquanto preconceituosas. Isto posto, não está em questão a orientação sexual do referido jogador. Não sou especialista em futebol, mas é público e notório que o Ciro é um jogador aclamado por sua torcida, desempenha bem seu papel enquanto atleta e, portanto, merece no mínimo um pingo de respeito inclusive dos seus adversários.
O que ele faz na sua intimidade ou deixa de fazer diz respeito unicamente ao próprio, agora quando a discriminação se torna tão GRITANTE é impossível calar. A questão foge do foro íntimo e passa a ser uma chaga social que precisa ser sanada.
A bola da vez é: respeitar as diferenças
Infelizmente ainda não somos educados para respeitar as diferenças. Por mais que sejamos todos diferentes uns dos outros, nossa educação ainda é padronizada, de modo que o que foge à norma historicamente estabelecida (heteronormatividade hegemônica) não será visto com bons olhos.
Deste modo, não somente LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) têm seus direitos violados, como os/as negros/as, os/as indígenas, os/as ciganos/as, aqueles e aquelas que professam uma religião não cristã, a exemplo dos povos de terreiro, as mulheres, os/as idosos/as, as pessoas com deficiência, os ateus...
O futebol, em sua essência é diverso, plural. O que seria de um clube de futebol se não existisse o seu adversário para a competição? Assim, é inadmissível qualquer manifestação de preconceito e discriminação por parte de quem quer que seja, afinal de contas o meu time precisa do outro para mostrar sua superioridade ou onde é necessário melhorar. Está mais do que na hora de entrarmos em campo para fazermos o gol do respeito a todas as diferenças.
Fazer do limão uma limonada
Em face do lamentável acontecimento acima descrito muita coisa pode ser feita. De nossa parte iremos aproveitar a oportunidade para dialogar com o diretor da torcida Inferno Coral, Sr. Rogério Guedes acerca da construção das políticas públicas para a população LGBT no Estado de Pernambuco. Lhes entregaremos cópias das duas leis municipais (de Recife) que punem a discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero, do decreto do Exmo. Sr. Governador de Pernambuco sobre o uso do nome social de travestis e transexuais, bem como outros materiais educativos, bem como solicitaremos que gritos de guerra com teor homofóbico não se repitam mais nos estádios
.
Paralelo a isso, mas não menos importante, estamos negociando com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o lançamento do selo “Faça do Brasil um Território Sem Homofobia” para provavelmente em maio.
Oxalá tais ações nos ajudem a continuar indo aos estádios, torcer por nossos ídolos com a bandeira do nosso time em um mão e a do respeito às diferenças na outra. Para finalisar, nada mal parafrasear Fernando Pessoa:
“O AMOR é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente”.
Ameaça de morte a homossexuais em banheiro de Shopping do Recife
Written by Rhemo GuedesQuem nunca parou para ler os recadinhos deixados nas portas do banheiro público? Falam de amor, de sexo, de futebol, entre outros temas do dia-dia de todos que por ali passam e registram sua “mensagem” para interagir com o (s) próximo (s) usuário (s) da cabine.
Ocorre que nem sempre esses diálogos são divertidos: é o caso da pichação deixada por Skinheads no banheiro do Shopping Boa Vista em Recife-PE, mês de setembro, que dizia: “Já somos mais de 5.000 integrantes só aqui em Pernambuco/Espalhados em várias cidades já prontos para dar início a purificação da raça humana/A mídia vai tremer de tanto horror e não vai dar conta de quantos mortos vamos deixar/Vamos começar em outubro de 2011/Podem esperar/Vamos matar todos os veados do Recife”.
Para que este episódio não seja objeto de mais uma descarga e a chegada do mês de outubro negligenciada pelas autoridades competentes, cabe breve consideração acerca da natureza da pichação no Boa Vista. Especialmente agora quando mais um casal de homossexuais foi agredido por skinheads em São Paulo, na Avenida Paulista.
A agressão ocorreu na madrugada deste sábado, 1º de outubro... E o fato foi registrado na Delegacia como lesão corporal e não homofobia, como poderia ser caso existisse no Brasil legislação que criminalizasse esse tipo de violência.
O lugar da pichação não foi à toa: O Shopping, localizado no Bairro da Boa Vista/Recife-PE, é frequentado preponderantemente por homossexuais, razão pela qual foi apelidado carinhosamente por Boa Bicha.
Faz às vezes de gueto para homossexuais, quando Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais não têm assegurado o direito de ser diferente nos demais locais públicos e reúnem-se no entorno do Shopping.
A ameaça contra veados também não foi à toa: Segundo o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos contra homossexuais. Destaca-se que a população LGBT é vítima de outras violações – física, moral, psicológica, sexual, tortura, abandono – praticadas pela família, vizinhos, grupos organizados (Skinheads etc.), desconhecidos entre outros.
De um modo geral, como indica a coleta de homicídios LGBT do Movimento Gay Leões do Norte em Pernambuco, os assassinatos contém requintes de crueldade, com pedradas, pauladas, facadas, espancamentos, que preenchem a peculiaridade dos crimes cometidos contra homossexuais.
Assim descreve o seguinte trecho de reportagem: “A vítima fora assassinada com 24 perfurações de projéteis, sendo que a maioria dos tiros atingiu a região das nádegas e um disparo foi identificado no ânus do indivíduo” (AMORDAÇADO e executado. Folha de Pernambuco, Pernambuco, 06 de dez. de 2007. Seção Polícia).
Todos sabem que veado é a expressão utilizada popularmente para se fazer menção ao gay e que este animal tem o número 24 no jogo do bicho. Face à complexidade do preconceito e da discriminação no cotidiano LGBT, precisamos, evidentemente, reconhecer a homofobia como fenômeno social, cultural e político.
A violência exacerbada contra veados pela pichação é um produto e, ao mesmo tempo, o elemento estruturador da homofobia na medida em que incita ainda mais o ódio contra homossexuais.
Mesmo que o pichador ou seu grupo organizado não chegue a matar gays em Pernambuco, outras pessoas, igualmente preconceituosas e potencialmente criminosas, poderão encontrar neste “recado” força para fazê-lo, como de fato tem sido notificado pelo Grupo Gay da Bahia e Movimento Gay Leões do Norte.
O autor da pichação – seja uma pessoa ou grupo organizado – deve ser identificado e punido: A certeza de impunidade e o estereótipo do gay indefeso – quando a pichação foi feita no banheiro masculino – estimulam ainda mais a ação de algozes que poderão vir a concretizar o prometido pelo homofóbico da cabine.
Segundo a pichação, toda pessoa LGBT está virtualmente sujeita a um ataque homofóbico a partir deste mês que se iniciou no sábado (outubro), já com duas agressões na Av. Paulista em SP.
É fundamental que as autoridades tomem parte neste fato e identifiquem o autor da ameaça contra homossexuais. Essa idéia de purificação foi implantada em todo mundo com o nazismo – representado pela suástica ao final da mensagem/AMEAÇA!
Problema público de justiça e cidadania: Do ponto de vista da segurança pública, a análise responsável da pichação no banheiro do Boa Vista é de máxima importância para que seja criminalizada a homofobia no Brasil. Sabe-se que a disseminação das tradições judaico-cristãs pelo mundo fundamentou leis repletas de valores morais religiosos.
Contudo, diante da realidade de violência a que estão submetidos LGBT, quem peca é a LEI – pela ausência no “texto” constitucional de instrumento que garanta de fato o Direito da Livre Orientação afetivo-sexual.
Enfim, sem que a homofobia seja vencida inclusive na Lei, a população LGBT continuará a ver, para além dos recadinhos de portas de banheiro, pelo ralo a sua CIDADANIA.
A sociedade contemporânea em inúmeros aspectos (tecnológicos, principal mente) é bastante avançada. O homem fuçou até a lua! Entretanto, em outros aspectos parece que ainda vivemos na Idade da Pedra Lascada.
Exemplo disso é a homossexualidade, que fora dos espaços freqüentados por homossexuais, do gueto (que é importante na construção da identidade homossexual) é extremamente condenada e temos que conviver com diversas formas de preconceitos explicitados em piadas, dogmas religiosos, conceitos morais e por porcarias desafinadas que alguns chamam de música.
Uns seguem driblando essas manifestações, outros optam por denunciar e exigir o respeito. Essa última vem crescendo e fortalecendo a comunidade homossexual, o que reflete a consciência cidadã em não aceitar que sua individualidade seja motivo de chacota e humilhação.
Mas a questão do preconceito que cerca a comunidade homossexual não está somente focada na sexualidade, se é homem com homem, mulher como mulher e simplificado em dois corpos numa cama ou no mato, se assim preferir os ares do campo.
Mas os jeitos, trejeitos, roupas, identidade com o gênero feminino ou masculino, casamento cartorial (não confunda com igreja), direitos iguais aos casais héteros, adoção e educação dos filhos e os etc., etc., etc..